sábado, 26 de julho de 2014

"A rede e a falsidade"

Com o advento das redes sociais e das relações virtuais ficou patente que a humanidade já não é o que era em termos de relações interpessoais e que é muito mais dificil distinguir o falso amigo da falsa pessoa, digo conexão online.

Não quero com isso dizer que tudo que exista na rede seja falso ou pouco digno de confiança porque afinal existem muitas pessoas verdadeiras que as utilizam.

Também não quero com isso dizer que as pessoas reais das redes sociais não sejam falsas amigas. Nada disso!

Simplesmente chegamos ao ponto que irremdiavelmente teremos que reaprender a fazer, manter e nutrir amigos reais do que garantir um número de conexões das quais muitas delas são perfis falsos e avatares erróneos geridos por pessoas mal intencionadas que são desde certo ponto de vista muito mais perigosas que uma pessoa “amiga da onça”.

Sabemos bem que no pior dos casos, em caso de litigio entre pessoas reais sempre será possível recorrer a ajuda de familiares, amigos ou até mesmo o tribunal. Mas quem gere o litígio ou as escaramuças online? De momento, ninguém.

A não ser que seja um terrorista, ou bombista que ameace a integridade de determinado país, dificilmente se luta contra o que não é real e não se pode provar, ainda que as acções e suas consequências se façam patentes num universo de milhares e milheres de usuários que tal como foi a vida em tempos idos, têm que se bater pela lei de talião, olho por olho e dente por dente ou nada feito.

E é aí que os clãs virtuais e os núcleos exclusivos se fazem sentir cada vez mais. Pessoas que precisam da prova de que quem se comunica com elas, existe, é de carne e osso e acima de tudo tem aquele aspecto e é quem afirma ser.

Já é tão dificil num mundo cheio de competitividade e ambição desmesurada, perceber quem será aquele que irá passar a perna ao outro, quanto mais entabular uma relação de conversa, partilha de ideias e talvez até confissões, com quem pode ser justamente aquela pessoa que fora da vida virtual se queria ve-la nem pintada em ouro.

Daí a confusão e a dificuldade contemporanea de não se distinguir quem realmente é um falso amigo. Se é aquela pessoa que as ocasiões demonstraram que não é de todo de valia ou se é aquele perfil ou avatar criado online que não responde aos comentários e as mensagens. E para piorar, quem é mais falso afinal, se aquela pessoa que ainda que responda, entabule conversações e defenda opiniões, use a máscara da virtualidade para protejer a sua identidade, mas que vive com base numa mentira que somente a si lhe convém.

Bem dizem os nostálgicos que já não são estes tempos como eram os de antes, mas não seja por isso que nós sejamos incapazes de reconhecer a valia destes novos meios, mas que como tudo na vida é dever de grande importância aprender a dominá-lo, geri-los e organizá-los e reaprender acima de tudo o que significa a amizade, como é que ela se faz, como é que ela se mantém e como é que ela nos serve para as ocasiões onde só nesses casos se reconhecem os verdadeiros amigos, seja na vida real, como na virtual. Contudo amanhã ainda é outro dia e muito há ainda que aprender.


Redacção e Locução de Mel Gambôa

Crónica emitida na Luanda Antena Comercial - LAC
Programa "Amanhã é outro dia" de Paulo Araújo

sábado, 19 de julho de 2014

“Calar ou não calar, eis a questão”

<<Não alimentes os bulhões>> clamam as vozes que se dizem entendidas em boa conduta social e comportamento individual.

Isso significa simplesmente dizer “cala-te e está-te quieto” variando os argumentos ou porque se é superior ou porque se é demasiado inferior.

Perpetua-se assim e com bastante êxito a liderança da violência contra homens, mulheres e crianças de todas as cores, credos e nacionalidades.

Os alvos mais comuns e mais fáceis de atingir são as mulheres e as crianças um pouco por todas as latitudes e longitudes do planeta terra, pelo principio tido como NORMAL de que são os seres mais frágeis e dependentes da humanidade.

O que dificilmente é questionado, é que: até que ponto, calar uma vítima de qualquer tipo de agressão, irá transformar o comportamento do agressor para melhor? Não serão também agressores, ainda que passivos, aqueles que obrigam e induzem a vítima a calar-se e a viver sozinha com os traumas dos abusos que sofreu? Porquê que afinal os defensores das boas condutas, em vez de silenciarem a voz de quem contesta e se defende, não agem simplesmente contra os bulhões parando e impedindo a propagação do seu mau comportamento que simplesmente é visto como NORMAL?

Pois é, são as incongruências sociais que se afundam cada vez mais porque não existe coerência e sim excesso de condescendência.

Recentemente, cada mais ações em prol da verdadeira igualdade, fraternidade e justiça entre os seres humanos são encetadas por algumas organizações. Contudo, enquanto o NORMAL continuar a ser o abuso, a violência, a agressão deliberada, o assédio sexual e o emudecimento das vítimas então pouco ou nada poderá ser feito para que a paz e o bem estar reine no seio de todos.

Afinal de contas o que é que deveria ser NORMAL?

Normal é uma criança ser educada através de bons exemplos de conduta dos seus pais ou encarregados de educação, não a ser espancada e violada e obrigada a calar e a viver com uma culpa de que não percebe.

Normal é uma mulher ter acesso a trabalho, vida social e pessoal, a crescer como ser humano de acordo aos seus próprios critérios baseados no seu direito a liberdade de escolha, sem ter que ser continuamente sexualizada, assediada e agredida por quem acredita que ela é inferior ou só tem a função de procriação e suporte da vida do homem e ficar deste modo calada porque “a vida é mesmo assim”.


Normal é um homem ter esperanças e expectativas para o futuro para ele próprio e para quem o rodeia sem ter que calar e consentir aquilo que não é nem justo, nem equilibrado, mas o qual é doutrinado a silenciar e a não contestar.

Redacção e Locução de Mel Gambôa

Crónica emitida na Luanda Antena Comercial - LAC
Programa "Amanhã é outro dia" de Paulo Araújo

sexta-feira, 18 de julho de 2014

"Makas da Banda"

Já não basta a conexão de internet não ser das melhores, pagares, pagares e pagares para depois estares na rede, com o teu wireless ligado e uma serie de tentativas de invasão, estranhamente causam um surto de bugs, mas o computador está protegido, só que a jogar a defesa, desligo o wireless e tudo deixa de funcionar em condições: impressora e scanner vão a vida, o modem precisa de ser reiniciado,  a tábua de desenho precisa de ser reconfigurada, o trauma dos fios voltou aarrghhh já nada funciona remotamente, tudo precisa de USB's de novo, já não bastam as HD's.

Tudo ok, essas cenas acontecem... Recentemente foram a vida 27 Gigas irrecuperáveis de todas as fotos da minha vida… o que foi que eu disse mesmo: essas cenas acontecem. De qualquer modo estava há 24 horas seguidas acordada.

Vou a casa de banho para refrescar o rosto abro a torneira e wó wó wó wóóóó sem água. Minha nossa, penso logo que a electrobomba terá pifado. Hora de verificar o tanque e surpresa: está completamente vazio. Pepino! Aproveito a hora e chamo a cisterna enquanto é cedo. Que depois das 9 a.m. já ficam todos comprometidos.

Passo o dia sem água corrente, sem net, sem o meu office a trabalhar como deve de ser, prontos está decidido, vou ver televisão. Começa aquele filme marado que me relembra a minha infância, já não me lembro se Rambo, Robocop, Terminator é nesse momento que a luz diz hasta la vista baby!

Arrrrgh, mas mantenho a calma, vou mexer no conversor e tac, tac, o gerador não ligou. Pópilas! Vou verificar a situação e o tanque do combustível não foi abastecido. Ligo para os responsáveis e todos os telemóveis estavam desligados (mais tarde vim a saber, que andavam sem luz em casa há mais de uma semana e a vizinha já não estava a dar fezada de carregar o telemóvel).

Atiro um bidon vazio para o porta-bagagens, pego no carro e tento arranjar um pouco de combustível só para safar. Primeira bomba não tem, segunda bomba não enche bidons, terceira bomba está a abastecer… na esperança espero meia hora e na hora de me atenderem dizem que esqueceram de avisar que não enchem bidons, nem mesmo com o bidon no porta malas. Tasse bem. Encontro finalmente uma estação lá no fundo de um bairro que me faz a gentileza de encher o bidon, fico com o carro todo a cheirar a gasóleo e volto para casa, ligo o gerador.

Naquela de descansar um pouco frente a tv, o sinal começa a falhar, vou para a janela e um vento saído sabe-se lá de onde começa a bater forte, as porta começam a bater, a ventania piora.

Piff vai o sinal de televisão, bom ao menos o gerador tá safo, mas no meio disso tudo quando vou tentar tomar um banho dou conta que a cisterna nunca chegou, liguei ao responsável que me disse que com a chuva, só no dia seguinte… hruuummm… ok

Voltamos então aos tempos antigos e tomamos uma banhoca de caneca. 
De repente paff, a luz se apaga, a música acaba. O gerador é que se tinha desligado, lá fora está tudo inundado, fico sem vontade de ir ver o que se passa.

O dia estava a acabar, com a tempestade, o céu escureceu mais cedo, sem computador, sem net, sem luz, sem gerador, sem água.  Lembro-me que até aquele momento não tinha comido nada, não encontro nada pronto e o pão está duro como pedra. Na tentativa de cozinhar alguma coisa fico malaike porque o fogão é electrico, o microondas também, ai bate uma saudade do fogão a gás ou de um fogareiro básico só para colocar a água a ferver para um chá quentinho.

Apanho umas bolachas Maria para safar e acendo algumas velas e duas lanternas e olho ao meu redor a pensar no que fazer e encontro a solução. Era perfeito, com sistema wireless, scan automático através da retina, possibilidade de avançar e recuar sem freezes, não precisa de bateria ou de qualquer fonte de energia, bang, era isso mesmo que faltava: um livro.


Peguei nele, li, ri e gargalhei até adormecer e só acordei no outro dia. “São as makas da banda”

Redacção e Locução de Mel Gambôa


Crónica emitida na Luanda Antena Comercial - LAC
Programa "Amanhã é outro dia" de Paulo Araújo