segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Sobre raça e beleza.

Deveria haver um concurso chamado miss beleza natural, e para começar, deveriamos começar no continente africano, onde as mulheres foram relegadas ao papel de mulher feia e se por algum motivo ela for naturalmente bonita será sempre importante frizar que ela é uma negra bonita, por favor negritar e sublinhar a palavra negra, antes de bonita.

Outro continente e em particular país, deveria ser a India, onde tanto como as africanas, as mulheres indianas, desenvolveram o costume de branquear a pele graças aos colonos britânicos que com muito exito inculcaram nas pessoas de pele escura que a sua pele era horrenda e até diabólica e fonte de muitas desgraças.

Quanta lavagem cerebral!!

Óbviamente  que todo esse esquema de gravar uma determinada ideia na cabeca das pessoas tinha um objectivo muito claro. Dividir para melhor reinar e assim usufruir sem percalços de maior, da subservência e do negócio escravagista.

Mas abolida formalmente a escravatura contra as “raças” – entre aspas – porquê que não desapareceu o preconceito, o auto-flagelo e a discriminação até entre semelhantes?

Não quero com isso dizer que a escravatura acabou, muito pelo contrário. Aumentou até a olhos vistos, mas isso é assunto para outra crónica.

Mas uma ideia pode ser a cura ou o vírus fatal que aniquila uma sociedade inteira.

Contudo não estamos mortos, aqui nos matemos de pé, hirtos e firmes, mas com a necessidade de reconhecimento pelo que se é, tal e qual, sem retoques ou forçadas semelhanças com este ou aquele.

Daí a necessidade de um concurso chamado miss beleza natural que deveria comecar em Africa, passando pela Asia e finalmente pelo resto do mundo de forma a acabar com o fundamentalismo de um só padrão e esterótipo de beleza que escraviza mulheres livres, numa busca inalcansável e inatingível de um padrão de beleza que muitas vezes até nem existe de forma natural, sem se recorrer a mutilações e intervenções cirurgicas extremas.

Sim deveria haver um concurso assim, que se tornasse  numa brincadeira de crianças e que essas crianças se parecessem a elas mesmas, com cabelo crespo ou olhos rasgados, com pele escura ou amarelada.

Somos todos diferentes, portanto os conceitos de beleza deveriam ser diferentes. É preciso travar a disseminação do cliché “para quem é negra é muito bonita”, “ é chinesa mas até que é gira” ... Hello, hora de acordar para a vida!

É preciso integrar, para começar por nós mesmos e depois por todos os demais. E deixar de crer que evoluir a raça é evitar e missigenação entre peles escuras, porque a raça é só uma, a humana e é por sermos humanos que queremos ser todos reconhecidos, com todo o nosso potêncial, seja de beleza, como de intelecto e que a cor da pele não seja impedimento disso.

Deveria haver um concurso de Miss Beleza Natural, de modos a que se passaria a dar mais valor a aquela beleza que vem de dentro para fora e que luta cada dia para atingir o seu máximo potêncial.


Redação e Locução: Mel Gambôa - emitido no programa "Amanhã é outro dia" de Paulo Araújo na rádio LAC - Luanda ANtena Comercial.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Odores...

Conviver com o estrume, faz com que nos acostumemos a ele. Tanto é que o odor a perfume pode causar profundo desgosto, raiva e irritação.

Conviver com o nefasto, faz com que nos acostumemos a ele. Tanto que a bondade, a beleza e a sinceridade são vistos como petulância, prepotência e arrogância.

Já não há meio termo.

Há uma fórmula típica de quem está confortável com a desgraça alheia, e esta formula é a frase mágica que diz: aqui neste lugar é mesmo assim e Ponto final.

Qualquer projecto de limpeza, qualquer processo de higienização é visto como insurreição ao sistema construido sobre esterco, sobre a acostumação dos narizes aos odores da porcaria. Não se pode falar, se sabes um pouco mais limita-te a tua máscara de gás perfumado, não seja abusado.

As vezes alguns narizes têm a oportunidade de descobrir  outros lugares, outros cheiros, e percebem por comparação, que o odor do costume é inaceitável, deprezivel, até abominável... mas como falar de um cheiro a uma massa de narizes acostumados a uma só coisa e sem hipótese alguma de experimentar algo novo em conjunto?

Ainda que se empreste a máscara de gás perfumado, um a um, esse entendimento nunca calará no fundo dessas almas viciadas no mau cheiro.

Tal como Morpheu depositou todas as suas esperanças em Neo, alguém haverá que irá depositar a sua fé num único herói libertador da opressão que causa ao olfato tamanha carrada de lixo, de estrume e de esterco.

Mas os narizes só poderão desejar outro cheiro, se ao menos souberem que existe algo diferente e melhor do que têm.

Mas a mudança é difícil. Os narizes são incrédulos a amostra oferecida pela máscara de gás perfumado. Terá sido um sonho? Terá sido uma experiência transcendental?

O hábito e o costume são mais fortes que qualquer vislumbre que seja, do perfumado odor a lavanda e jasmin, rosas e girassóis, gerânios e violetas.

Os narizes, eles mesmos, estão doutrinados a aceitar um único odor, o odor da salvação, aquele que já lhes foi mostrado e ainda que novos odores os façam duvidar, a fé é absoluta, não se pode nem se deve mudar.

Decepem essas flores desde a raíz, gritam coléricos os narizes mais fundamentalistas.

Heresia, heresia alardeam os presunçosos dogmáticos, não há cheiro melhor do que o que já temos, somos os escolhidos para o Cheiro Único.

Os poucos conhecedores dos segredos das flores e do poder do seu perfume, encolhem os ombros, refugiam-se nas suas mascaras e camaras de gás, vivem no seu nicho, desenvolvem melhor as suas ideias e a sua criatividade, pois o odor a esterco já não os deixa viver na ansiedade.


 Redação e Locução de Mel Gambôa - emitido no programa "Amanhã é outro dia" de Paulo Araújo na rádio LAC - Luanda Antena Comercial

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

É preciso trazer de volta a luz a mulher que jaz no âmago da negra.

“O que mais me chocou na América é que uma mulher caucásiana é simplesmente retratada como uma mulher, mas uma mulher afro-descendente é sempre citada como mulher negra”

Quando a mulher negra deixar de ser mulher negra e for simplesmente mulher, talvez, não sei, o preconceito termine,  talvez, não sei, a perpetuação de crenças de auto-flagelo cessem, talvez, não sei.

Não importa quão clara seja uma mulher negra, ela será sempre negra. Chamem-lhe carvão, azulada, morena, mulata ou cabrita, mas ela não deixará de ser negra, só pena que o mais importante é que ela não seja primeiro mulher.

Só pena que a essa mulher negra é-lhe negado a cada geração o direito de ser ela mesma, é obrigada a  ter vergonha de se aceitar a si própria e a viver sufocada na tristeza de ser rejeitada por ser isso, por ser negra ,  negra e por isso menos mulher.

O primeiro flagelo que se inflinge a mulher negra é contra o seu próprio cabelo. A fonte de auto-estima de grande parte das mulheres de todas as cores e ascendências.

O cabelo da mulher negra é motivo de chacota, de vergonha, de auto-ódio e não aceitação.

O ritual começa desde o lar, onde a mãe, avós ou tias chamam ao cabelo da menina negra de cabelo ruim. Ruim! O adjectivo que cala no fundo da alma e ali envenena e corrói todo o ser da mulher que é negra, até que ela mesma tenha coragem ou seja salva por uma fonte de absoluta inspiração

Além do cabelo, são as representações que lhe são ensinadas a aceitar como o BELO. A boneca da menina negra é branca, loura de olhos azuis, por que a boneca negra é sempre caracterizada com os traços mais feios, como se não houvessem crianças feias noutros tons de pele.

As representações de heroínas nunca são negras, as negras é-lhes relegado um papel secundário, omisso ou de reles  membro de trupe.

Onde anda a mulher, que até é negra. Onde anda a mulher que se orgulha do seu cabelo crespo, super encaracolado, frizado e volumoso, sem querer danificá-lo pouco a pouco com produtos de alisamento para se enquadrar no padrão de beleza branco. Onde anda a mulher que até é negra que aceita o seu tom de pele como uma beleza diferente das demais belezas no mundo, sem ter que ser tratada como um bicho raro, ou como pássaro exótico. Onde anda a mulher que até é negra e que olha para os seus traços grossos de nariz, de lábios, de olhos,  e os aceita porque ela já nasceu assim de bela e se há gente feia não tem nada a ver com a cor, mas ou com a pobreza ou com a herança genética que todos os povos desse planeta têm que lidar.

Há que resgatar a mulher que há dentro da negra. Aquela que sabe o que vale simplesmente pelo que é. Aquela que lida com o seu cabelo com a naturalidade histérica de qualquer outra mulher que não consegue saber como se pentear ou o que vestir. Aquela que usa creme para pele para a hidratar, não para a branquear. Aquela que percebe que os seus traços são únicos, com os quais vale a pena ficar.

Aquela que não precisa de se odiar a si mesma somente porque alguém engendrou o ódio no seio da sua ascendência.

É preciso acabar com esse ódio para que essa mulher mãe negra não os passe mais para os seus filhos e filhas, para que essa mulher irmã negra, não odeia as suas irmãs por terem nascido mais pálidas, para que essa mulher esposa negra, não rejeite o seu homem negro para que ela mesma possa conceber um filho de raça “melhor” – entre aspas.

É preciso trazer de volta a luz a mulher que jaz no âmago da negra.


Redacção e locução: Mel Gambôa - emitido no programa "Amanhã é outro dia" de Paulo Araújo na LAC - Luanda Antena Comercial.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

As crenças equivocadas e a morte ao amor próprio.

A actual sociedade globalizada, herdeira de duas guerras mundiais, uma guerra fria, ameaças terroristas e de ataques biológicos, está a deixar as pessoas cada vez mais inseguras, ansiosas, apressadas e sem paciência para nada.
Tudo é para ontem, tudo é para já. Não há tempo a perder, ou se poderá já cá não se estar.

A forma com que essas emoções afectam ao ser humano, faz com que este se sinta perdido e cubra esse permanente vazio que lhe invade com um consumo excessivo e até obsessivo de tudo e mais alguma coisa.

Infelizmente o sol que ilumina e aquece a todos, nem a todos sorri e quem não tem acesso a todas as glórias que o sistema proprociona a troco de dinheiro e em consequência a troco de tempo que por sua vez deriva do trabalho árduo e incensante, então sente que já não lhe resta remédio que não roubar, ludibriar, surrupiar, prostituir-se ou nos demais escalar.

Não é fácil aceitar que essa beleza juvenil tão em voga, esvai-se e esfuma-se  rapidamente no tempo e que estende-la um pouco mais custa os olhos da cara, pelo que não será nada estranho admitir que é esse poder  juvenil que se vendem em frascos a preços exorbitantes que fazem com que cada vez mais jovens se entreguem sem pensar ao “aqui e ao agora” porque a beleza e a juventude são efémeras e da prosperidade pouco se sabe e mal se entende. Há que aproveitar enquanto é tempo.

Daí não haver mais forças para contrariar, os monstros que se construíram nos desafectos e nas afeições compradas a preço de mercado, da última consola, boneca ou bicicleta. Tudo está a venda, tudo tem um preço, aproveita enquanto és mais novo, mais jovem e assim a inocência infantil se vai embora pois não tem mais espaço nesses corações apressados, apertados, da angústia causada por essa pressa, por essa ansiedade por essa falta de sobriedade. E assim se vai matando o amor próprio e novas crenças surgem, e se vão propagando no consciente e subcosnciente colectivo.

O mote é: não medir os meios para alcançar fins, fins que tão rápido se esmorecem, como as modas passageiras. A prostituição deixou de ser a profissão mais antiga, como que passou a ter mais glamour, mais adesão, até de quem se licenciou mas não vê mérito e prosperidade a ser alcançado pelo seu diploma, em tempo e hora antes que o frescor da beleza e da juventude se esmoreça é cada vez mais abominável crescer, aceitar a maturidade e as marcas de expressão testemunhas de uma vida que se propôs a ser vivida. A bajulação e o lambebotismo é outra prática muito utilizada, cada vez mais comum, mais descarada, tudo passa a ser uma questão de se estar bem ligado ao mais potêncial negócio ou badalada. Porque enquanto se é jovem e bonito é que é bom. E assim se vai materializando uma crença, uma ideia, alicerçada sobre o vão, fútil, efémero. Nem aqueles por quem os anos já passaram são imunes desse contágio corrosivo. É uma busca insensante para se ter, se ter e nunca se ser.

E assim se leva a vida, com o pé no ontem, com outro no amanhã, e o dia de hoje é completamente obliterado, de tal maneira descuidado, que apesar da força interior única de cada ser humano, este se deixa levar pela ânsia, pelo medo, pela especulação e assim vai deixando vazar de si mesmo, o amor próprio e a saudável esperança de que amanhã ainda é outro dia e que quantos mais somados a esse, mais valerão a pena.


Redacção e Locução de Mel Gambôa - emitido no programa: "Amanhã é outro dia" de Paulo Araújo, na rádio LAC - Luanda Antena Comercial