segunda-feira, 13 de outubro de 2014

É preciso trazer de volta a luz a mulher que jaz no âmago da negra.

“O que mais me chocou na América é que uma mulher caucásiana é simplesmente retratada como uma mulher, mas uma mulher afro-descendente é sempre citada como mulher negra”

Quando a mulher negra deixar de ser mulher negra e for simplesmente mulher, talvez, não sei, o preconceito termine,  talvez, não sei, a perpetuação de crenças de auto-flagelo cessem, talvez, não sei.

Não importa quão clara seja uma mulher negra, ela será sempre negra. Chamem-lhe carvão, azulada, morena, mulata ou cabrita, mas ela não deixará de ser negra, só pena que o mais importante é que ela não seja primeiro mulher.

Só pena que a essa mulher negra é-lhe negado a cada geração o direito de ser ela mesma, é obrigada a  ter vergonha de se aceitar a si própria e a viver sufocada na tristeza de ser rejeitada por ser isso, por ser negra ,  negra e por isso menos mulher.

O primeiro flagelo que se inflinge a mulher negra é contra o seu próprio cabelo. A fonte de auto-estima de grande parte das mulheres de todas as cores e ascendências.

O cabelo da mulher negra é motivo de chacota, de vergonha, de auto-ódio e não aceitação.

O ritual começa desde o lar, onde a mãe, avós ou tias chamam ao cabelo da menina negra de cabelo ruim. Ruim! O adjectivo que cala no fundo da alma e ali envenena e corrói todo o ser da mulher que é negra, até que ela mesma tenha coragem ou seja salva por uma fonte de absoluta inspiração

Além do cabelo, são as representações que lhe são ensinadas a aceitar como o BELO. A boneca da menina negra é branca, loura de olhos azuis, por que a boneca negra é sempre caracterizada com os traços mais feios, como se não houvessem crianças feias noutros tons de pele.

As representações de heroínas nunca são negras, as negras é-lhes relegado um papel secundário, omisso ou de reles  membro de trupe.

Onde anda a mulher, que até é negra. Onde anda a mulher que se orgulha do seu cabelo crespo, super encaracolado, frizado e volumoso, sem querer danificá-lo pouco a pouco com produtos de alisamento para se enquadrar no padrão de beleza branco. Onde anda a mulher que até é negra que aceita o seu tom de pele como uma beleza diferente das demais belezas no mundo, sem ter que ser tratada como um bicho raro, ou como pássaro exótico. Onde anda a mulher que até é negra e que olha para os seus traços grossos de nariz, de lábios, de olhos,  e os aceita porque ela já nasceu assim de bela e se há gente feia não tem nada a ver com a cor, mas ou com a pobreza ou com a herança genética que todos os povos desse planeta têm que lidar.

Há que resgatar a mulher que há dentro da negra. Aquela que sabe o que vale simplesmente pelo que é. Aquela que lida com o seu cabelo com a naturalidade histérica de qualquer outra mulher que não consegue saber como se pentear ou o que vestir. Aquela que usa creme para pele para a hidratar, não para a branquear. Aquela que percebe que os seus traços são únicos, com os quais vale a pena ficar.

Aquela que não precisa de se odiar a si mesma somente porque alguém engendrou o ódio no seio da sua ascendência.

É preciso acabar com esse ódio para que essa mulher mãe negra não os passe mais para os seus filhos e filhas, para que essa mulher irmã negra, não odeia as suas irmãs por terem nascido mais pálidas, para que essa mulher esposa negra, não rejeite o seu homem negro para que ela mesma possa conceber um filho de raça “melhor” – entre aspas.

É preciso trazer de volta a luz a mulher que jaz no âmago da negra.


Redacção e locução: Mel Gambôa - emitido no programa "Amanhã é outro dia" de Paulo Araújo na LAC - Luanda Antena Comercial.

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