segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Odores...

Conviver com o estrume, faz com que nos acostumemos a ele. Tanto é que o odor a perfume pode causar profundo desgosto, raiva e irritação.

Conviver com o nefasto, faz com que nos acostumemos a ele. Tanto que a bondade, a beleza e a sinceridade são vistos como petulância, prepotência e arrogância.

Já não há meio termo.

Há uma fórmula típica de quem está confortável com a desgraça alheia, e esta formula é a frase mágica que diz: aqui neste lugar é mesmo assim e Ponto final.

Qualquer projecto de limpeza, qualquer processo de higienização é visto como insurreição ao sistema construido sobre esterco, sobre a acostumação dos narizes aos odores da porcaria. Não se pode falar, se sabes um pouco mais limita-te a tua máscara de gás perfumado, não seja abusado.

As vezes alguns narizes têm a oportunidade de descobrir  outros lugares, outros cheiros, e percebem por comparação, que o odor do costume é inaceitável, deprezivel, até abominável... mas como falar de um cheiro a uma massa de narizes acostumados a uma só coisa e sem hipótese alguma de experimentar algo novo em conjunto?

Ainda que se empreste a máscara de gás perfumado, um a um, esse entendimento nunca calará no fundo dessas almas viciadas no mau cheiro.

Tal como Morpheu depositou todas as suas esperanças em Neo, alguém haverá que irá depositar a sua fé num único herói libertador da opressão que causa ao olfato tamanha carrada de lixo, de estrume e de esterco.

Mas os narizes só poderão desejar outro cheiro, se ao menos souberem que existe algo diferente e melhor do que têm.

Mas a mudança é difícil. Os narizes são incrédulos a amostra oferecida pela máscara de gás perfumado. Terá sido um sonho? Terá sido uma experiência transcendental?

O hábito e o costume são mais fortes que qualquer vislumbre que seja, do perfumado odor a lavanda e jasmin, rosas e girassóis, gerânios e violetas.

Os narizes, eles mesmos, estão doutrinados a aceitar um único odor, o odor da salvação, aquele que já lhes foi mostrado e ainda que novos odores os façam duvidar, a fé é absoluta, não se pode nem se deve mudar.

Decepem essas flores desde a raíz, gritam coléricos os narizes mais fundamentalistas.

Heresia, heresia alardeam os presunçosos dogmáticos, não há cheiro melhor do que o que já temos, somos os escolhidos para o Cheiro Único.

Os poucos conhecedores dos segredos das flores e do poder do seu perfume, encolhem os ombros, refugiam-se nas suas mascaras e camaras de gás, vivem no seu nicho, desenvolvem melhor as suas ideias e a sua criatividade, pois o odor a esterco já não os deixa viver na ansiedade.


 Redação e Locução de Mel Gambôa - emitido no programa "Amanhã é outro dia" de Paulo Araújo na rádio LAC - Luanda Antena Comercial

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