domingo, 8 de novembro de 2015

Oprimidos defendem ferozmente os seus opressores

O texto que se segue não existe, pois a sua autora muito menos. Afinal o que mulheres dizem é nada e noutros escritos, já constatei a condição de ser NADA.

Atualmente e desde há já alguns anos,  Angola é um país com um regime político opressor, silenciador e persecutório.
A falta de liberdade de expressão real, varia de acordo ao perigo que a pessoa em questão, representa para quem governa. Esse perigo se caracteriza por informações e factos que se possam comprovar e nunca ser desmentidos e chamados de mera calúnia. Ou até pela possibilidade de desmantelar desde a base toda essa opressão estrutural, motivo pelo qual os 15+2 foram presos e brevemente a maioria será julgada. Entretanto, as mesmas queixas apresentadas por partidos da oposição ou que se dizem da oposição, assim como pelos apartidários que compõe o movimento batizado como movimento revolucionário de Angola são exatamente as mesmas queixas das mulheres lúcidas deste país, que entretanto de modo sistemático têm vindo a ser oprimidas, silenciadas e perseguidas.

O esquema de opressão contra as mulheres é exatamente o mesmo, só que nesse caso não se tratam de partidos ou não-partidos, se tratam de homens a oprimirem, silenciarem e perseguirem mulheres. Há risco de intimidação e morte por falar em ambas situações? Sim, há.

Tal como o que se vê na nossa vida diária, os cidadãos deste país apesar de estarmos a maioria absoluta em situações precárias oscilando entre a total miséria e a sobrevivência “equilibrada”, de acordo a classe social, cidadãos há que mesmo em total e absurda miséria DEFENDEM FEROZMENTE O SEU OPRESSOR. Eles acreditam em todas as falsas verdades e promessas deles enquanto se refugiam em processos de total alienação mental tais como procissão de fé, exaltação dos prazeres e vícios mundanos e/ou indignação selectiva.

O mesmo sucede com os homens anti-regime em relação as mulheres. Sim, todos gritam por liberdade, mudança e equilíbrio social, contudo agem EXACTAMENTE como os seus opressores oprimindo, silenciando e perseguindo as mulheres que se posicionam com autonomia de ideias e de pautas políticas. Mas não seja por isso, apesar de existirem mulheres combativas e de produção intelectual independente, mulheres há que ao igual a analogia anterior, DEFENDEM FEROZMENTE O SEU OPRESSOR e atacam as suas congéneres mulheres pela sua fé cega e absoluta nas falsas verdade e promessas deles, como por ex.: “após vocês mulheres nos ajudarem a alcançar a liberdade vocês terão o VOSSO LUGAR garantido na liderança do país, afinal a luta é <<em beneficio de TODOS>>”.

A pergunta que não quer calar é: se no processo da luta, o posicionamento de uma mulher na mesma luta e em prol dos objectivos comuns, é diminuído e silenciado ou totalmente atacado e tido como nocivo, assim como as suas denúncias relativamente a ataques de assédio sexual e agressão moral de viés machista e misógino são relegados como não importantes, o que me poderá levar a crer que o modus operandi masculinista não se irá manter após, alcançada a liberdade pela que se luta?

Se em ambos os lados das trincheiras ideológicas, temos que continuar a sublevar as nossas dores, questionamentos e posições a nos mantermos caladas porque aparentemente fazemos parte do grosso da luta e não podemos constranger ninguém para não fragilizar a luta por um bem maior, não tenho como evitar questionar, então: a quem serve realmente esse dito “bem maior”?

Foram-me dados exemplos como Nzinga Mbandi, Deolinda Rodrigues, Lucrécia Paim de mulheres que lutaram em prol do país, contudo apesar de uma suposta veneração masculina a sua memória, não vejo atualmente, ABSOLUTAMENTE NENHUMA MULHER A SER TRATADADA COMO IGUAL por homem nenhum, afinal para eles está muito claro qual é o nosso lugar. Conclusão: nós mulheres só temos servido para fazer número, claque, ser operacionais de retaguarda em toda e qualquer luta ao longo da história, todas absolutamente masculinas.

Politicamente mulheres continuamos a viver de quotas femininas no parlamento ou em cargos públicos e em casos particulares a voz de mulheres mais ativas é silenciada por diversos mecanismos persecutórios. Socialmente continuamos a ser agredidas, constrangidas, atacadas, perseguidas, violentadas, abusadas, estupradas e mortas, e somos o alvo principal na demanda da prostituição, pornografia e humilhação sexual pública. Judicialmente mulheres, continuamos a não ter uma rede de segurança e de resposta efetiva a violência específica que nos aflige, o aborto ainda é crime portanto a função biológica do nosso corpo é ainda propriedade do estado de um estado que não nos garante segurança e mecanismos para que essa segurança possa ser redobrada em caso de violência contra nós mulheres e também meninas. Profissionalmente mulheres ainda somos exploradas com salários menores, enquadramento em profissões não valorizadas, assediadas sexualmente sem ter a quem onde recorrer, prostituídas como forma de aumento de renda ou de ascensão de cargo ou pior, como forma de manutenção do emprego ou possibilidade de o ter. Academicamente mulheres continuamos a ser condicionadas a profissões tipicamente femininas e menos valorizadas, assediadas e diminuídas em formações tipicamente masculinas, assediadas e prostituídas por professores que usam a progressão académica
Social e familiarmente somos sistematicamente pressionadas ao casamento (mesmo quando existe uma relação estável e esta seja hetero) e a maternidade (tanto em relações hetero como em relações homossexuais e afectivas) em detrimento do nosso empoderamento e autonomia financeira, em detrimento da nossa liberdade de escolha, em detrimento das escolhas do tipo de vida que queiramos ter.

Portanto, o SILENCIO  das nossas predecessoras NUNCA nos beneficiou, e foi somente a voz ativa e combativa das mulheres que ousaram falar, que nos permite hoje estar aqui. Contudo há ainda muito que lutar em prol das mulheres, para as mulheres, pelas mulheres e com as mulheres.

Conclusão: homens estão sempre, VISCERALMENTE , contra as mulheres que não são como feministas que agem ao igual que Emma Watson ou Chimamanda Ngozi Adichie, porque eles não toleram mulheres que se posicionem literalmente como iguais, eles acusam essas mulheres quererem ser “como homens” e aí  reside e se reflete o facto de que homens não têm interesse de igualdade verdadeira que nos poderá garantir um mundo mais equilibrado e equitativo sem a pressão e foco nas nossas capacidades biológicas e reprodutivas, mas sim nas capacidades humanas inatas em ambos humanos XX ou XY. Considerando que humanos XY são escravos desse sistema capitalista que nos rege a todas/os em que apesar do seu sofrimento eles são os seus privilegiados dentro da cadeia piramidal de opressão, a persecução contra mulheres que reivindicam a sua humanidade plena, é o mesmo padrão sequencial do oprimido a defender o seu opressor por meras migalhas. Homens são os lacaios do sistema de opressão que rege o mundo. Sequencialmente mulheres são lacaias dos homens (mulheres brancas na luta capitalista são lacaias de homens brancos; mulheres negras na luta negra são lacaias de homens negros, mulheres indígenas na luta indígena são lacaias de homens indígenas, mulheres asiáticas na luta anti-imperialista são lacaias de homens asiáticos). Homens DEFENDEM FEROZMENTE O SEU OPRESSOR, mulheres  DEFENDEM FEROZMENTE O SEU OPRESSOR.

OPRIMIDO DEFENDE FEROZMENTE O SEU OPRESSOR. A diferença entre hierarquia necessária e opressão é que enquanto a hierarquia é transparente e rotativa a opressão não é rotativa e mantem o oprimido na ignorância e obscurantismo.


Quem acredita na liberdade plena, não existe. Eu não existo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Posicionamento socio-político exclusivamente feminista - Mel Gamboa

No dia 2 de Novembro lancei um vídeo no Facebook em que me posicionava únicamente como activista feminista por perceber que independentemente dos lados políticos da circunstância política-social de Angola as vozes das mulheres são sempre silenciadas, as nossas queixas são vistas como exagero e quando somos assediadas fisica ou virtualmente anulam e diminuem as nossas queixas como se de nada se tratasse.

A violência contra mulheres e meninas deve ser eliminada de todos os quadrantes, seja através do idioma, através das relações inter-pessoais e seja da visão global sobre papeis de género em particular da mulher.

Ao cortarem o video original que mais facilmente viralizou, descontextualizaram propositadamente o meu discurso e vão interpretar como um ataque as pessoas a quem me alinho ideologicamente por justiça social e demandas de equilíbrio económico e político e dão a ideia falta de posicionamento.

Eu concluí no vídeo que me passaria a posicionar exclusivamente numa luta feminista em prol das mulheres. E justifico porquê dando detalhes.

Lembrar que machismo é uma idea que se manifesta em múltiplas formas, já o mau caracter somado ao machismo faz da masculinidade um factor de opressão contra mulheres nos mais diferentes níveis.

Veja na íntegra, são 15 minutos e 24 segundos.

É possivel as pessoas tomarem posicionamentos socio-politicos diferentes sem se matarem e em prol do bem comum, devemos recordar que homens e mulheres temos pautas diferentes numa mesma sociedade e no caso das mulheres a luta é bastante específica.

Este é o vídeo original publicado pela segunda vez e pela primeira vez fora da rede Facebook por mim como autora.


O machismo é uma ideia global, reflectida na socialização masculina dos homens (masculinidade) e na socialização feminina das mulheres (feminilidade).


Como tudo na vida existem pessoas diferentes entre si em que os vícios capitais de caracter, são ampliados pela forma com que cada pessoa se adequa ao género.

Muitos homens reivindicam não serem machistas por isso, pois associam o machismo ao mau caracter. E a minha insistência se deve a necessidade de questionarem, mas não, como bons machistas o que uma mulher diz ou é loucura ou é exagero ou é falta de homem … 

Caracter é uma característica humana. Portanto as suas nuances em cada pessoa associada ao papel de género masculino condicionado aos homens, (sendo estes privilegiados do sistema), faz com que homens no seu conjunto e pela absurda maioria de agressões practicadas por pessoas do sexo masculino contra mulheres e meninas sejam conotados como maus, potenciais agressores e estupradores, ainda que sejam homens decentes.

O que faz o machismo ser associado a ser má pessoa (homem) é o caracter de extrema violência de alguns homens que é sustentada pela ideia de que "homens são mesmo assim", ou "só está a ser homem".

Portanto não é que alguns homens sejam machistas, todos são machista só que uns mais mau caracter que outros e esse comportamento se reflete como agressão a mulher pois a ideia do machismo é que mulheres são inferiores aos homens.

Portanto a premissa de que todos os homens são machistas temos desde os agressores sexuais, aos agressores morais e fisicos, aos agressores por cumplicidade com os agressores e os omissos. Contudo TODOS lidam entre si num modo de cumplicidade e fraternidade masculina que contrasta a rivalidade feminina fomentada pelo machismo.

O Luaty Beirão é uma pessoa de um carácter impecável, de uma sensibilidade única e de um coração enorme e foi preciso muito diálogo e uma humildade inegualável da parte dele para perceber que quando uma mulher é sistematicamente silenciada, é machismo. Esse silenciamento se caracteriza do seguinte modo: estás a exagerar, não é bem assim, estás a ver machismo onde não há… isso TAMBÉM É MACHISMO.

Uma das características transversais a todos os homens e machistas é a falta de empatia e silenciamento das mulheres. Escutem as mulheres e quando o fizerem questionem porquê que a vossa masculinidade tanto depende da resignação das mulheres condicionadas a feminilidade.

Precisamos de evoluir!


Neste link poderão escutar o áudio de uma entrevista em que o discurso é o mesmo e sempre na mesma linha de pensamento: http://www.voaportugues.com/content/angola-fala-so-mel-gamboa-feminista-louca-incomoda/3029446.html

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O calor, o azul escuro e os últimos dias de cacimbo.

O calor, o azul escuro e os últimos dias de cacimbo.

Falar do tempo sempre foi uma boa forma de quebrar o gelo, encher chouriços ou uma analogia de “morder a língua”.

Mas como cá entre nós, não há gelo para quebrar, nem chouriços para encher, nem tão pouco língua para morder, vou falar do tempo, just for the sake of talking about it.

Francamente não sei em que época o azul fica mais escuro durante a noite, se na época veranil ou no tempo seco de cacimbo, o que sei é que se desfruta mais a olhar para o céu nocturno durante o tempo de calor, pois no tempo do frio ninguém quer sair de uma noitada de observação estelar completamente cacimbado.

Nos últimos dias de cacimbo o tempo tem a mania, e porque é divertido personificar o tempo, o tempo tem a mania que dá rasgos tentadores de calor, para que o ser mais ansioso para que o verão finalmente chegue, se dispa dos agasalhos e se atire a correr para a praia, seja ela fluvial, seja ela marítima ou para loucos banhos de piscina.

Chegado oficialmente o inicio de verão e depois da sedução do clima para que mais ninguém se coibisse de dizer: welcome summer, o tempo decide que é caprichoso e não tem nada que dar tudo de uma vez.

Até que ele, tempo, decida, quando é que será altura de planejar piqueniques na praia sem correr o risco do dia acordar cinzento e mal disposto e obrigando as almas menos motivadas a ficarem na cama enroladas nas suas mantas e endredons, continuamos todos sem usufruir do máximo de vitamina D que nos seja possível obter e da boa disposição que o calorzinho nos dá.

Acho que até aquelas desejáveis cervejas a estalar ficam cacimbadas de tanto esperar para que com vontade sejam bebidas, porque com o frio são sempre preteridas por um tinto até pelo mais audaz dos cervejófilos.

Para os que adoram o frio e se sentem extremamente confortáveis com ele,  o fim do cacimbo é um momento de nostalgia antecipada e de prever com horror, os dias de suores indesejados, cheiros intensos e da vil sensação de estar “caloreados”.

Para os viciados em calor, viver nos trópicos é a bênção de durante nove meses usufruir de um clima temperado bem ao gosto do freguês e para quem não tem mais remédio e gosta do oposto recebe três mesitos de frio e fresquinho, em que há pouco ou nada de calor, em que não sei se o azul é mais escuro de noite, mas que os dias de cacimbo, estão mais do que contados.

O tempo é assim, tem rasgos de generosidade, ora favorece a uns, ora favorece a outros, mas quem faz mesmo questão de sentir frio, por favor que se mude para o planalto, porque um calorzinho e noitadas ao luar, não há igual.


Redação e Locução de Mel Gambôa para o programa "Amanhã é Outro Dia" de Paulo Araújo na LAC - Luanda Antena Comercial 95.5 FM

Os anti-depressivos, as ervas e o senso comum.

Os anti-depressivos, as ervas e o senso comum.

A vida é dura. Não é preciso esmiuçar muito, ela é dura e ponto, para uns a sensação é mais difícil, para outros nem tanto, mas no final das contas a vida é difícil para todos. Ricos, pobres, feio, bonitos, saudáveis, doentes, sejam quem forem, andam todos metidos na alhada da vida em que as dificuldades não perdoam ninguém e em que cada um leva uma cruz, que por sorte é um cruz a sua medida e que seja capaz de suportar.

A vida é cíclica. Não é preciso uma tese de mestrado para se perceber que ela é cíclica e ponto. Há momentos que a vida de uma pessoa corre como um mar de pétalas de rosas, outros momentos há, em que essa mesma vida corre como um mar de espinhos das mesmas rosas. Ricos, pobres, feios, bonitos, saudáveis, doentes, sejam quem forem, tanto quanto puderem vão nadar nesse mar e nos ciclos que daí vierem.

Entre ciclos e dificuldades, o processo mais complexo é a adaptação a cada ciclo e a gestão das dificuldades que deles advêm. O ser humano é complicado, naturalmente teimoso, e por mais que se acabe por adaptar as circunstâncias, leva tempo, uns mais que outros, mas levam tempo. E cada um a seu tempo, a medida da sua receita de anti-depressivos, ervas e senso comum vão conseguir desfrutar em tempo dos ciclos bons que a vida lhes propõe e dos ciclos maus que nunca ninguém quer, mas que todos têm mesmo que aguentar.

Os antigos sempre disseram que depois da tempestade sempre vem a bonança e que não a mal que não tenha fim, nem bem que sempre dure. Esses mesmos antigos (sim, sim, pessoas da antiguidade, muito mais atrás dos nossos tempos, mas que passaram por vicissitudes e outras atitudes), esse antigos através de um faraó e de um tipo famoso que interpretava sonhos sempre tiveram muito claro, que era preciso estar alerta e BEM ALERTA.

Com o sonho faraónico das vacas gordas e das vacas magras, se chegou a conclusão que em tempos de fartura, de alegria e abundância em tudo, era preciso criarem-se reservas e uma forma de estar, que chegada uma época de carestia e exiguidade de tudo até de amor próprio fosse possível cada pessoa superá-la de cabeça erguida e com alguma dignidade.

Não sei e nunca li em lado nenhum, como é que os antigos se safavam nestes momentos e se todos se saíam airosos dos momentos atrozes da vida, com a única exceção de que usavam a gestão, o método e a organização tal qual a formiguinha na história da Cigarra e da Formiga. Mas com a globalização de hoje e porque alguns seres humanos já podem “voar” (entre aspas claro), tal qual pássaros e migrar para as regiões quentes evitando os rigorosos invernos de outras paragens num abrir e fechar de olhos (bom talvez algumas horinhas e algum jet lag), então já não se vive a bonança e a crise em conjunto. É tudo um: salve-se quem puder! E para quem não pode migrar fisicamente para as zonas veranis, aguenta o inverno ou a temporada das vacas magras como puder e para se sair airoso nada como uma boa receita de anti-depressivos, ervas e senso comum e toca a encarar os ciclos e a dureza da vida o melhor que se puder.


Redação e locução de Mel Gambôa para o programa "Amanhã é Outro Dia" de Paulo Araújo na LAC - Luanda Antena Comercial 95.5 FM