terça-feira, 27 de outubro de 2015

A hipocrisia ...

A hipocrisia, o medo da morte e a crença que quem comparece em funerais tem que ir com cara bosta.

A parte, o triste facto de que quem perde um ente querido, tem as suas feições e postura corporal transfiguradas pela dor real da perda e da impotência de nada poder fazer contra a morte, muito pouco se justifica da postura e atitude de quem na verdade se está marimbando para a dor e morte alheia; no fundo até se ri e fazer parte da cerimónia fúnebre é nada mais nada menos que mero acto social, que muitas vezes para essas determinadas pessoas é incentivado pelo medo a sua própria morte e  de uma ausência de cortejo fúnebre acompanhado pelo maior número possível de pessoas.

A empatia é um sentimento natural nos seres humanos que significa: capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo.

Os seres humanos têm empatia uns pelos outros, reconhecem-se e nos casos extremos de morte ou ameaça de morte reveem-se no outro.

Mas na falta de empatia e porque isso é também muito comum,  nada melhor que vestir a máscara e viver da hipocrisia. Todos querem ser reconhecidos como virtuosos, altruístas e de entrega totalmente generosa pelo outro é isso que a sociedade quer, é isso que a sociedade aplaude e o sistema está desenhado para funcionar assim, na defesa do bom convívio moral e entendimento razoável entre as pessoas.

Desdenha-se portanto o livre arbítrio e a capacidade do ser humano não sentir remorso algum que lhe faça sentir na obrigação de ser hipócrita justamente na ansia de preencher os critérios de virtuosidade e bondade impostos socialmente.

Mas o medo da própria morte não permite que cada coisa se mantenha no seu lugar e uma completamente separada da outra. Não vá o diabo tece-las, portanto há que engana-lo a ele e ao resto do mundo e fingir, fingir sentimentos e crenças e até virtudes que não se possui, porque a sinceridade é vista como agressão e total falta de respeito pelo sentimento de perda dos outros. Quanto as cobranças, sempre é bom, deixar “o corpo arrefecer” como popularmente se diz, quando na realidade o corpo sem vida muito rapidamente arrefece e muito antes até dele ser enterrado esse corpo já está mais frio que pedra após noite de cacimbo.

Quem quer ser conhecido por andar sorridente no funeral daquele individuo filho da mãe e que em vida teve muito poucos escrúpulos e que para mais muito pouca diferença fez na sua vida? Ninguém. Por isso é que por altura da própria morte, todo o mundo é bom, todo o mundo foi o ideal, seja honrada a sua memória e sejam fingidas emoções tristes, cara de bosta minha gente, faça a sua melhor cara de bosta é só um momento, tal qual performance teatral, neste palco chamado vida e não vá o diabo tecê-las porque noutro dia poderá ser a minha vez.


Redação e locução de Mel Gambôa para o programa "Amanhã é Outro Dia" de Paulo Araújo na LAC - Luanda Antena Comercial 95.5 FM

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