terça-feira, 27 de outubro de 2015

As boas famílias e os casos de “evolução da raça”.

As boas famílias e os casos de “evolução da raça”.

Do meu avô, negro, culto e castiço, herdei uma educação ocidental e uma formatação mental em particular. Não fossem as vivências sentidas na pele e as minhas individuais experiências de vida, estaria como se diz em grosso modo: fudida.

Sem querer perder tempo, em desculpar-me pela expressão anteriormente utilizada, avanço com esta crónica personalizada, que com base no que acreditam os grandes escritores, nada como falar daquilo que sabemos e compreendemos.

Como ia dizendo, o meu avô, negro, culto e castiço, descendente de avô mestiço e autor de uma prole um tanto "mestiça" também, nunca se considerou preto e dos pretos: ai como ele fala tão bem.

O meu avô negro, culto e castiço é daqueles, que como uns tantos quantos avôs que por aí proliferam, chamados em certo tempo e espaço de indígenas assimilados, são daqueles que por serem de outro tempo em que carregavam na cor ou na ascendência um certo status, rotulavam-se de “boas famílias” a custa de apelidos recebidos ou herdados. E desse modo criaram os seus filhos que por sua vez, lhes deram netos.

Em particular, o meu avô, negro, culto e castiço, que preso duas vezes pela PIDE fez do meu pai, seu filho, um maquizarde revolucionário, não sei agora se este último, inspirado pelas manias paternais herdadas de gema, nunca se atinou com as pretas e como muitos e inclusive o pai da nação angolana, acasalou com mulher branca e filhos fez em bolsa de estudos onde outrora foi a grandiosa URSS.

E seguindo o modus pensante do meu avô, poderia dizer-se que com essa trajectória toda, a evolução da raça estava garantida e a herança “de boas famílias” continuada.

Mas a terceira geração é sempre a geração que sai da norma esperada, enquanto uns pensavam na liberdade e outros pensavam em guerra, e com tanta angustia herdada pelas vivências dos nossos pais, nós os da terceira geração, deixamos que se diluísse essa parafernália mirabolante do que é ser “de boas famílias” – ainda que muitos vestígios se insurjam por aí e de acreditar que essa história da evolução raça tem a ver com degradés tonais mais pálidos, mas sim com uma mentalidade mais culta, integrada e humanista.

Mas como diz o velho ditado, que vaso ruim não quebra, ainda somos nós da terceira geração desses avós pretos, cultos e castiços, os atormentados no dia da apresentação do nosso par, com a boa maneira antiga de questionar: de quem és filho, quem são os teus pais e em jeito de sussurro ouvir “oh filha, mas trazes para casa um preto, mas tu queres atrasar-nos a raça é”? E a pergunta fica no ar, será da cor ou será do apelido? Porque no final das contas o meu avô culto, castiço e preto faz-me pensar, quando o assunto é cor de pele, eu não quero ter nada a ver com isso.



Redação e locução de Mel Gambôa para o programa "Amanhã é Outro Dia" de Paulo Araújo na LAC - Luanda Antena Comercial 95.5 FM

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