domingo, 21 de agosto de 2016

Úteros sequestrados e corpos femininos como unidades de produção em massa.

Náuseas, enjoos, indisposição, dores nas costas, dores nos rins, dores no baixo ventre, desconforto geral, desejos por coisas estranhas ou por vontade excessiva por coisas comuns, corpo pesado, cansaço constante, dificuldades de dormir, limitações na atividade física durante até nove meses...ninguém numa situação lógica e racional se submeteria a isso, mas o romantismo e a ideia construída desde a infância de que mulheres só estão no mundo para  procriarem torna o citado aceitável e até desejável, pois é vendida a ideia de que filhos cuidarão dos pais quando estes forem adultos ou de que filhos quando são crianças são uma fonte infinita de alegria, sorrisos e felicidade, só que a infância um suspiro ao lado da duração da idade adulta.

Existe uma avaliação seletiva e desonesta sobre a maternidade pois na verdade filhos são seres humanos, pessoas com traços de personalidade particulares e que podem ser um verdadeiro inferno, ainda que isso não desmereça as alegrias que as crianças dão, ainda que a romantização das mesmas ampliem pequenas coisas engraçadinhas, tudo isso para alterar a percepção da maternidade e a tornar A fonte de felicidade.

Ninguém escuta as mulheres. Principalmente quando as mulheres dizem a verdade. Afinal a nossa existência como pessoas está construída envolta em romantização da nossa existência que anula a nossa humanidade e vontades próprias.
Mulheres que têm a coragem de expor a gestação e a maternidade são DEMONIZADAS, CRUCIFICADAS, RIDICULARIZADAS E TAXADAS DE DESMERECEDORAS da “bênção divina de procriar”. Em contrapartida as mulheres que se negam a se submeter a gestação e/ou a maternidade são DEMONIZADAS, CRUCIFICADAS, MARGINALIZADAS E TAXADAS DE DESMERECEDORAS DE VIVER, afinal a existência da mulher se limita a parir e a fingir que gosta de crianças, mesmo que as deteste.

Em relação as mulheres mães observamos uma dualidade muito interessante, principalmente quando aceitam a alienação  como normal. Muitas detestam crianças, mas fazem filhos, sim, filhos no plural e não têm a mínima paciência com eles, mas aturam, afinal ela fez o que tinha que fazer, cumpriu o seu papel ao dobro, triplo ou quádruplo, a sociedade não tem que se queixar, afinal ela é mãe, e dos próprios filhos a maioria gosta. A sociedade  é que tem que a respeitar e a apoiar, afinal é assim que se vende a maternidade: ser mãe é o que torna a mulher uma pessoa e um ser respeitável digno de reconhecimento  da sociedade e esse reconhecimento vem de mães terem todo o direito de ser apoiadas e ter uma rede de suporte por cumprirem diligentemente a sua missão.

Sabemos que a realidade NÃO É BEM ASSIM. Mães se viram sozinha na maior parte das vezes. Quando muito são pessoas privilegiadas (seja pela família como pelo casamento), que têm dinheiro e possibilidade de pagar por apoio adicional, contudo a maioria das mortais faz das tripas coração e a sua existência é voltada ao sacrifício de criar condignamente uma ou mais crianças. Entretanto mesmo com olhos na cara para ver, a avaliação seletiva e romantizada de quem vê e de quem vive a gravidez e a maternidade, garante que na hora de as analisar, o cérebro de muitas mulheres deixe de funcionar com lógica racional e acompanhe a lógica do doutrinamento feminino - pela facilidade cognitiva - raras vezes a ideia da maternidade e filhos é questionada e enfrentada.

Quando esse questionamento surge e a mulher rejeita a feminilidade imposta – gravidez e maternidade como razão de viver da mulher é imposição e doutrinação da feminilidade ou papel de género feminino – a sociedade reage ferozmente e até aquelas mulheres que sabem e têm perfeita noção das suas agruras (pois elas não são acéfalas) se juntam ao coro e mentem, fazem toda questão de mentir e ampliar pequenas verdades, tudo para garantirem a aparente dignidade que a maternidade dá a mulher e a imaginária sensação de que sabem tudo, só por se terem submetido a um processo doloroso e angustiante que é literalmente uma agressão ao seu corpo.

Quem tem olhos para ver que veja e ouvidos para ouvir que escute. É muito importante dar atenção as mulheres que têm a coragem de usar a própria cabeça e pensar racionalmente (o que a maioria faz), mas que acima de tudo têm a coragem de ser honestas e verdadeiras em relação a gestação e a maternidade, sem floreios, rodeios e falsidades o que a maioria tem medo de fazer, pois afinal o SER MÃE é a resposta do porquê da existência feminina, o que na verdade é só uma espécie de paliativo, já que a resposta do porquê da existência ainda ninguém descobriu.

Vai acontecer, que muitas irão jurar de pés juntos que ser mãe é tudo que queriam ou querem na vida, só que parece que para estas mulheres somente o que elas querem é válido e fazem um esforço hercúleo em convencer outras mulheres em abraçar a maternidade como se fosse uma escolha. Sabemos que não. Mas a pergunta que não cala é: se você é mãe por escolha, porquê tanta imposição, perseguição, marginalização, desprezo, insultos e ódio até, por mulheres que escolhem não ser? Outra pergunta é: se você é mãe e quer ter respeitada a sua existência como mãe, porquê o desrespeito a existência das outras mulheres somente como mulheres e que rejeitam a maternidade?

As mulheres que rejeitam a maternidade intuitiva ou racionalmente, perceberam que o útero delas é parte do corpo delas e no corpo quem manda nele é quem o tem. Nascer com útero é como nascer com qualquer outro órgão. Da mesma forma que um homem não quer utilizar o seu ânus excepto para defecar, mulheres não são obrigadas a usar o seu útero excepto para menstruar. Pois menstruação e fezes são processos naturais do corpo (em circunstâncias salutares), enquanto que sexo anal é uma escolha, parece que somente maternidade é que não o é.

Sucede que a maternidade não é escolha e nunca foi, ela nos é imposta desde a mais tenra infância. Mulheres ganhamos bonequinhas e somos aplaudidas se imitamos as mulheres mais velhas na hora de nanar a boneca, dar de comer a boneca, fazer arrotar a boneca, mudar a fralda a boneca, fazer dormir a boneca e organizar a louça e cozinha de brinquedo igual que a mamã/ a vovó/ a titi, fazem com a louça e com a cozinha de verdade e é aí que a facilidade cognitiva triunfa. Seres humanos escolhem aquilo que acreditam ser verdade, portanto facilidade cognitiva é tudo aquilo que assistimos ou fazemos repetidas vezes  e que pela frequência se torna verdade, daí que se a mulher ao longo da vida teve bonecas, brincou com bonecas, leu e viu na televisão histórias românticas, escuta de todo mundo repetidas vezes sem fim que o papel da mulher é ser mãe é lógico que a “opção” será ser mãe, independentemente de isso chocar com a racionalidade de que todas somos dotadas. E é assim que de forma eficiente o capitalismo sequestra o nosso útero e faz dele um meio eficiente de produção humana para alimentar a industria do consumo alimentar, farmacêutico,  moda e degradação ambiental, que reflete uma autentica colonização da nossa existência e que nos mantém escravos obedientes do sistema.

Por isso é que as mães que dizem a verdade sobre a maternidade e as mulheres que escolhem não vivê-la são perseguidas. É como se um elemento desse meio de produção gigante, estivesse a desvirtuar todo o processo e interesses de quem quer manter seres humanos sempre miseráveis e com a sua humanidade limitada e dividida.

Em relação aos homens e a paternidade. O processo é o mesmo eles são que nem capitães do mato, no processo de ter o útero colonizado. O que mulheres aprendem, eles também aprendem. Sucede que eles não têm útero, mas têm que por obrigação fecundar úteros, mesmo que isso careça de sentido e lógica racional. Eles têm é que fecundar úteros. Isso será feito a bem ou a mal. Isso será feito com cavalheirismo ou com estupro directo. É parte da doutrina da masculinidade. Todos aprendemos que a humanidade tem que se reproduzir. Ninguém sabe bem porquê e mesmo vendo que os recursos escasseiam, que a pobreza e a miséria são cada maiores e que condições de sustentabilidade são limitadas e dependem de ações estatais ou não governamentais, homens também romantizam a paternidade, é parte do auge da sua masculinidade “matar a cobra e mostrar o pau”. Renegar a paternidade é mais absurdo ainda, afinal todo mundo sabe que é <<papel da mulher>> sacrificar a sua existência e individualidade para continuar esse processo de produção humana em massa. Homens só têm que fecundar úteros. Um papel bem mais privilegiado comparativamente ao da mulher na hora de sacrificar o corpo, mas que vem com a condição de sustentar e apoiar a mulher. Uns o fazem diligentemente e outros não. Mas o sistema não larga ninguém. O sistema tem leis que garantem que a mulher não se livre da maternidade e que os homens mal por mal garantam que essa maternidade exista. Quem se questiona, quem renega, quem considera tudo isso  sem lógica é perseguido e ostracizado, ridicularizado e diminuído.

São duas facas de dois gumes e ambos são sacrificados. Homens não precisam de viver a paternidade como mulheres vivem a maternidade, eles estão noutro processamento do sistema capitalista, eles são mão de obra pesada e mulher a mão de obra “deles”. Tentar se livrar de ser mão de obra do homem e não se livrar da maternidade é um bónus para o sistema capitalista, a mulher acaba por continuar com o útero colonizado e ainda fazer um papel adicional que é o de mão de obra pesada – inicialmente pensado para quem tem testosterona - e que para piorar contribui para que o mesmo funcione mais aceleradamente através do consumismo e das doenças psico-emocionais e tudo isso porque não questionam e porque a facilidade cognitiva torna ainda mais fácil perseguir quem diz a verdade.

Conclusão: é urgente a eliminação dos papéis de género. Não a sua reformulação. E em sequência a libertação dos úteros. Já que agora qualquer um “pode se identificar como mulher” . Sem a descolonização dos úteros através desse processo , que sim é doloroso, de desromantização da procriação, maternidade e papéis de género, nenhum ser humano será livre.

Mas como libertar escravos quando eles nem têm consciência que o são?



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