sexta-feira, 3 de março de 2017

A falha da teoria colorista.

Sofrer racismo não muda a nossa ascendencia étnica e não muda a nossa cor de pele (algo tangível). 
Ainda que brancos considerem negros e mestiços como sendo todos negros, escravizáveis e inferiores; na perspectiva de quem é negro (pele escura) e que não tem hipotese de circular socialmente como o fazem os mestiços, é diferente. Para negros, mestiços são isso: mestiços. 
A teoria colorista apela as emoções e a empatia das pessoas mais escuras em relação as mais claras, já que não importa o degradé, ambas sofrem racismo por parte de brancos (caucasianos e asiaticos).
Entretanto a teoria colorista falha redondamente na hora de ter empatia por quem é mais escuro e na hora de ceder espaços de fala. 
O slogan <<somos todos negros, porque sofremos racismo ou afromisoginia>> é só uma maneira cinica de evitar admitir privilegios de capital cultural incorporado, ou seja:
- cor de pele mais aceitavel por brancos ou em geral
- cabelo mais aceitavel por brancos ou em geral
- oportunidades académicas/sociais e económicas garantidas pela ascendencia branca.
Mestiços/as, sendo activistas em geral e inclusive aqueles do Movimento Negro/ Panafricanismo e Mulherismo, são cinicos. 
Parecem marxistas quando negam privilégios sócio-económicos e dizem: "mas sofremos todos nas mãos do capitalismo".
Parecem feministas brancas quando negam privilegios e dizem para as feministas negras: "mas somos todas mulheres e sofremos todas nas mãos do patriarcado".
Parecem homens panafricanistas/ MN quando negam os seus privilegios e dizem para as mulheres negras: "mas todos sofremos racismo da supremacia e imperialismo brancos".
E ao igual que nas situações mencionadas acima, tive que ler que as minhas intenções eram criar problemas e separatismo entre mulheres escuras e claras. 
E ao igual que nas situações mencionadas acima: "não se destrói ou se separa aquilo que já tem problemas varridos premeditadamente para baixo do tapete a custa do silencio dos não privilegiados". 
Será que em algum momento poderiamos fazer uso dos privilegios que se tem (mesmo que se digam poucos) e parar um pouco com o campeonato das opressões? 
O mais absurdo foi ver pessoas intelectualmente lúcidas, sempre prontas para atacar o cinismo de privilegiados e sempre indignadas com o não reconhecimento da sua produção intelectual, detonando teorias de gente privilegiada, a acusar-me de treteira e de que eu tento com esse tema, deitar por terra séculos de produção intelectual de HOMENS negros sobre a ideoligia politica da negritude.
Até hoje etnia e cor de pele são factos TANGÍVEIS. A pessoa <<se sentir>> de determinada raça/etnia é psicadelia. Usar o racismo/afromisoginia sofridos como forma de validação desse argumento, é puro cinismo. 
Por exemplo:
Em Angola cresci a saber que sou mestiça e ponto. Assim como qualquer pessoa com as mesmas características que eu.
Entretanto a teoria do colorismo e o facto de sofrer episodios (graves até) de racismo, fez com que me considerasse negra temporariamente. 
Até que ao estudar sobre CAPITAL CULTURAL - e tambem por respeito as mulheres negras/pretas escuras que vivem situações que eu nunca vivi e nem viverei por ser mestiça, achei digno e decente fazer uma avalição biologica, antropologica e factual da realidade que é: sou mestiça, pois descendo de progenitores de etnias e de cor de pele diferentes. 
Politizar ideologicamente o que  "ser negro" é mais do mesmo: negros (escuros) serem preteridos em nome dos mais claros que sempre tem voz e lugar de destaque na luta anti racista, assim como maior aceitação dos brancos.
As evidencias estao disponiveis para pesquisa. Os nomes mais proeminentes do Pan Africanismo e Movimento Negro são mestiços, no maximo são raras excepções de negros favorecidos financeiramente.
Citem nomes e pesquisem. 
Existem mestiços escuros e claros. Existem negros escuros e claros. Mas uma pessoa com meu tom de pele se dizer "negra clara" é tentar tapar o sol com a peneira. 


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