sábado, 4 de março de 2017

Um relato triste

Quando nasci, a minha mãe fez um drama por eu não ter nascido com pénis. O nome escolhido foi Emanuel. Sem uma opção para "o caso de nascer menina".

- Menina? Que horror. Impensável.

O meu pai contava-me esse episódio a rir, para explicar-me o porquê que o meu nome é Melakrini.

Sempre perguntei o porquê desse nome, foi um nome caído de paraquedas...se o meu pai fosse mais leviano poderia ser a primeira coisa XPTO que lhe aparece-se a frente, já que filhos de "assimilados" davam nomes XPTO's aos filhos e a mim calhou-me este...

O caso é que tinha 2 anos, sim DOIS, quando percebi que ser menina ERA UMA M***DA, pois foi quando nasceu o sonhado e mais esperado menino e varão dos olhos da mamã, ser sacralizado e colocado no pedestal desde a nascença.

TUDO ERA O PARA O MENINO. Claro que tinham a lata de me tentar enfiar pela goela a responsabilidade de "ser a mais velha"... - ambos os sexos levamos com essa granda lata dos pais -, mas eu tinha olhos na cara para ver que ser meninO é que era vida.

A minha mãe morreu dois anos depois e o meu pai criou-nos como animais de estimação (era assim como éramos chamados) com regras de adestramento rigorosas de ração, repouso, apanhar ar e ESCOLA (o trabalho mais importante das crianças), talvez por isso a reprodução de misoginia da minha mãe do inicio da minha existência nessa vida, se tenha reeditado com a crença de que sou humana assim como é o meu irmão.

Aos 11 fui brutalmente assediada na rua e aos 12 explicaram ao meu pai que ele me "estava a criar mal", pois daquele jeito (jeito humano) eu nunca arranjaria marido e como "até era bonita" não me podiam desperdiçar assim. Caso para dizer que aos 14 anos tive a minha primeira tentativa de suicídio ...mas não tomei medicação suficiente para matar...fiquei só um pouco grogue...até para se tirar a própria vida nem sempre se tem sorte.

Isso para dizer que a feminilidade que nos é imposta, ou seja não nasce com as pessoas só porque têm vagina, é uma prisão psicológica torturante e desumanizante.

Na noite passada tive um sonho de um polícia propor-me liberdade de detenção preventiva a troco de "serviços sexuais". Só me lembro de ter pedido a ele para sacar a arma do coldre e me matar.

Isso tudo para dizer que mulheres nascemos humanas, todo o resto é puro sadomasoquismo e há mulheres que ainda acham que a culpa é delas.


Eu só sou HUMANA. Nem puta, nem santa, nem guerreira, nem mártir. HU-MA-NA e ponto.

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