sábado, 20 de maio de 2017

Sofrer racismo não torna ninguém negro. Volume IV

"Se você sofreu racismo, sendo chamada de macaca, tida como ignorante, removida de certos círculos sociais pela sua cor, então você é negra"

"Nem o seu cabelo liso, nem os seus traços finos a impedirão de sofrer racismo"

"Colorismo explica: não deixem que retirem a sua negritude"

São frases que aprendi e assimilei sobre a ideia de que TODA A PESSOA QUE SOFRE RACISMO PASSA A SER NEGRA e que rejeitar essa idea seria colorismo ou auto ódio racista.

Lembro-me que sempre achei ofensivo ser chamada de negra pelos brancos espanhóis porque sou de um país em que as pessoas negras têm uma características obvia: PELE ESCURA. Daí que alguém forçar a barra de que eu sou negra é como dizer:<< que as pessoas de pele escura NÃO EXISTEM ou de que vivemos nas mesmas circunstâncias de oportunidades e mazela social>>, até que me deparei com a teoria colorista.

O colorismo na minha vida, foi sol de pouca dura, um romance efémero com a minha recém descoberta "negritude". Mas como feminista radical que desconstrói tudo e quer resposta lógica para tudo e que também faz analogia e paralelismo com tudo, num curto espaço de tempo percebi o CINISMO E CARA DE PAU DA MESTIÇAGEM em particular de pessoas brasileiras, mas como sempre tem uma pessoa negra (pele escura) para defender tudo e todos até quem dissimuladamente a silencia e discrimina, larguei de debater, pois acabava por levar com doses altas de xenofobia por ser africana e eu não tenho mais tempo para isso.

Sofrer racismo não torna ninguém negro e repetirei isso até a exaustão. Já que é facto de que pessoas brancas de tez morena sofrem insultos racistas mas não deixam de ter privilégio branco por isso.

Por outro lado, insistir que sofrer racismo torna alguém negro é anular as particularidades de quem realmente é negro e não tem nem de longe a mesma mobilidade social de quem é MESTIÇO, sim, isso mesmo MESTIÇO, nem mulato, nem pardo, MESTIÇO.

Um parêntesis aqui: existem mestiços em todas as raças e etnias e isso não torna implícito nada além de que se é mestiço e ponto. No caso de negros e brancos, os mestiços mais escuros serão lidos como negros e os mais claros terão maior mobilidade social e tolerância racial. Todo mundo sabe disso. Só não aceita isso pessoa masoquista que adora campeonato de opressões.

Só a título de exemplo, na hora do sofrimento comum quando ainda éramos crianças, as minhas amigas negras sempre diziam "Mel, hoje estamos todas no mesmo barco, mas tu ao menos és mulata". Ok, ok ser chamada de mulata é duro e ofensivo, mas sabemos o que elas queriam dizer. Queriam dizer que: apesar das merdas, metade daquilo que elas almejariam, eu sempre poderia alcançar só por ter a pele clara e elas não e isso é aplicável a TODAS AS PESSOAS MESTIÇAS.

É curioso ver as reclamações de pessoas mestiças sobre o racismo em altos círculos sociais em que está é curiosamente a única representação palpável de "pessoa negra" e de como essa pessoa mestiça vive numa bolha tão grande agarrada ao seu sofrimento que não vê que pessoas mais escuras que ela rara vez ou quase NUNCA têm acesso a determinados círculos sociais exatamente porque o racismo trata a cada grau de tom de pele com maior ou menor tolerância. E a isso se chama MOBILIDADE SOCIAL muito bem explicada pela análise do Capital Social Individual.

"Ah mas a hipersexualização"; "Ah mas o ser humilhada por ser assim e assado"... UMA COISA NÃO RETIRA A OUTRA CAMARADAS! Sofrer racismo é uma coisa. Ser negro é outra coisa. Nenhuma coisa retira a outra.

Existem inclusive mestiças que são lidas e vivem como brancas a vida inteira,mas depois querem dissertar mais do que mulheres negras sobre racismo e discriminação (um exemplo prático disso é na série Dear White People o confronto entre Cocô e Samanta White - quanta ironia). Sim sofremos todos racismo, mas isso não é fórmula de negritude, pois negritude não é intangível nem ideológica e sim tangível, física e real.

"Ah mas é que nos EUA todo mundo é negro não importa o tom de pele, já que existe a lei da única gota que diz que uma única gota de sangue negro torna a pessoa impura e portanto NEGRA."

É aí que eu fico ainda mais chocada com o paradoxo e com a falta de olhos na cara ou com o cinismo descarado das pessoas. Espera vou colocar a palete de cores nos comentários para verificar se vocês são mesmo daltónicos.

1. A lei da única gota foi criada por brancos, portanto racistas. E real empoderamento de quem sofre racismo é não se definir por brancos e sim se definir pela lógica biológica que é só ter olhos na cara para ver.

2. A lei da única gota também existe na India e indianos
a) não se consideram negros.
b) são extremamente racistas com negros (tanto de certas etnias indianas como de etnias africanas).

3. Negritude não é uma ideologia, pois nesse caso teremos que legitimar pessoas brancas serem negras por elas acreditarem ser negras (não discuto psicadelía).

4. Se colocarmos as pessoas umas ao lado das outras as diferenças são evidentes. É só ter olhos na cara para ver.

5. A realidade da vida diária das pessoas e sua mobilidade social que lhes permite sair mais rapidamente da miséria e pobreza é evidentemente diferente entre um tom de pele e outro. Referir também que se estar em conformidade com padrões de beleza TAMBEM CONTA na mobilidade social. Só para deixar claro que não ser pobre previne a pessoa de sofrer exploração parasitária de outros seres humanos.

6. Ainda que a hipersexualização seja uma merda, ser ACEITE é um dos factores mais importantes das relações humanas. As pessoas preferirão ser odiadas ou até maltratadas, mas é melhor ter alguma atenção e migalhas de afecto, do que ser desprezadas e ignoradas totalmente como se fossem invisíveis. Não é a toa a situação social e afectiva de muitas mulheres negras ser de abuso e negligência total.

a) só despreza migalhas quem já teve o luxo de comer um pão ou ao menos uma fatia desse pão.
b) só se sente saturada de atenção quem alguma vez teve atenção.

7. Contudo é importante frisar o salto quântico que a mulher negra pode dar, através da observação dos erros e sofrimentos dos outros. Ou seja: aceitar a misoginia só para poder experimentar o "ser mulher" mesmo que estejamos numa época em que o debate sobre o género já ultrapassou a limitação da genitália é como querer viver a revolução industrial do século dezoito em plena era da informação digital. Mas isso é tema para outro texto.

Concluindo existem muitos factores que dão alguma legitimidade sobre mestiços serem considerados negros, mas é como já vi alguém dizer aqui no FB "não é problema dos negros o vazio identitário dos mestiços" e a dizer verdade mestiços só se dizem negros porque têm sobre as pessoas negras privilégios, assim como brancos têm sobre todos nós e um destes privilégios é a capacidade de silenciar os outros, descaradamente e isso acontece de modo subtil como acesso a maior informação e outro nível de preocupações e aceitação social.

Daí que, sendo que o mundo está em constante evolução, dizer ou forçar a que alguém se considere negro quando é evidente ser primeira ou segunda geração de progenitura branca é como dizer que: sofro racismo por isso sou negra e automaticamente a mãe branca que me pariu nunca existiu.

Eu entendo que o colorismo é mágico, é tipo bálsamo pra dores, mas é mesmo melhor aceitar que dói menos e evita confusão com as pessoas :)

#racismo
#colorismo
#aboliçãodaraça

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